Soberania de Deus

Isto ensina o mesmo que a Confissão de Fé de Filadélfia, quando diz: — “Deus decretou nEle mesmo desde toda a eternidade, pelo mais sábio e santo conselho de sua própria vontade, livre e imutavelmente, todas as coisas que venham a passar”. Outras passagens que ensinam a soberania absoluta de Deus são as seguintes:

 

“Quem não entende, por todas estas coisas, que a mão do SENHOR fez isto? Na sua mão está a alma de tudo quanto vive, e o espírito de toda a carne humana” – Jó 12:9, 10; cf. Ezequiel 18:4.

 

“O SENHOR tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” – Salmos 103:19.

 

“Tudo o que o SENHOR quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos” – Salmos 135:6.

 

“Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Porventura da boca do Altíssimo não sai tanto o mal como o bem?” – Lamentações 3:37, 38.

 

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” – Isaías 45:7.

 

“Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” – Isaías 46:9, 10.

 

“E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” – Daniel 4:35.

 

“Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” –Mateus 11:25.

 

“Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem” – João 19:11.

 

“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” – Romanos 9:15 – 18.

 

Veja também Atos 2:23 e 4:27, 28.

 

A Teologia Bíblica, dá ênfase à soberania de Deus, em virtude da qual Ele determinou soberanamente, desde toda a eternidade, tudo quanto há de suceder, e executa a sua soberana vontade em sua criação toda, natural e espiritual, de conformidade com o seu plano predeterminado. Isso está em plena harmonia com Paulo, quando ele diz que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). Por essa razão. É simplesmente natural que, ao passar da discussão do ser de Deus para a das obras de Deus, deve-se começar com um estudo dos decretos divinos. Este é o único método teológico apropriado. Uma discussão teológica das obras de Deus deve ter seu ponto de partida em Deus, tanto na obra de criação como na de redenção ou de recriação. É somente como provenientes de Deus e com Ele relacionadas que as obras de Deus são submetidas a consideração como parte da Teologia. A despeito deste fato, porém, a Teologia Bíblica fica praticamente sozinha em sua ênfase à doutrina dos decretos. A Teologia luterana é menos teológica e mais antropológica. Incoerentemente, ela toma seu ponto de partida em Deus e considera todas as coisas como divinamente predeterminadas, mas revela uma tendência para considerar as coisas de baixo para cima, e não de cima para baixo. E se até este ponto ela crê na predeterminação, inclina-se a limita-la ao bem que há no mundo, e mais particularmente às bênçãos da salvação. É um fato notável, que muitos teólogos luteranos permanecem silenciosos, ou quase silenciosos, a respeito da doutrina dos decretos de Deus em geral e discutem somente a doutrina da predestinação, e consideram esta como condicional, e não absoluta. Na doutrina da predestinação, a teologia luterana mostra forte afinidade com o arminianismo. Krauth (influente líder da Igreja Luteranas) chega a dizer: — “as opiniões pessoais de Armínio, quanto aos cinco pontos, formaram-se sob influências luteranas, e não diferem essencialmente das da Igreja Luterana: — mas em muitos pontos do sistema que se desenvolveu e agora é conhecido como arminianismo, a Igreja Luterana não tem nenhuma afinidade com ele, e nesses pontos teria muito maior simpatia pelo calvinismo, embora da doutrina da predestinação absoluta. A “Fórmula da Concórdia” toca nos cinco pontos quase que unicamente nas suas facetas, e com base nestas apresta-se contra o calvinismo, mais pela negação das inferências que resultam logicamente deste sistema, que pela expressa condenação da sua teoria fundamental em sua forma abstrata”. Na medida em que os teólogos luteranos incluem a doutrina da predestinação em seu sistema, geralmente a consideram em conexão com a soteriologia. Naturalmente a Teologia arminiana não coloca no primeiro plano a doutrina dos decretos. A dos decretos em geral é usualmente conspícua por sua ausência. Pope apresenta só de passagem a doutrina da predestinação, e Miley a introduz como um ponto para debate. Raymond a discute somente na doutrina da eleição, e Watson dedica a esta, considerável espaço, ao tratar da expiação. Todos eles rejeitam a doutrina da predestinação absoluta, e a substituem por alguma forma de predestinação condicional. A Teologia do liberalismo moderno não se interessa pela doutrina da predestinação, visto que é fundamentalmente antropológica. Na “Teologia da crise” ela volta a ser reconhecida, mas numa forma que não é escriturística, nem histórica. A despeito de recorre aos Reformadores, afasta-se largamente da doutrina da predestinação ensinada por Lutero e Calvino.

 

1 – Nomes bíblicos para os decretos divinos.

 

Das obras puramente divinas de Deus (opera ad intra) devemos distinguir as que redundam diretamente nas criaturas (opera ad extra). Para evitarem mal-entendidos, alguns teólogos preferem falar em “opera immanentia” e “opera exeuntia, e subdividem a primeira categoria em duas classes, opera immanentia per se, que são as opera personalia (geração, filiação, espiração), e as opera immanentia donec exeunt, que são as opera essentialia, isto é, as obras do Deus triúno, em distinção das obras de qualquer das pessoas da Divindade, mas imanentes em Deus até se concretizarem nas obras da criação, da providencia e da redenção. Os decretos divinos constituem esta classe de obras divinas. Não são descritas abstratamente na Escritura, mas são colocadas diante de nós em sua concretização histórica. A Escritura emprega diversos termos para o eterno decreto de Deus.

 

TERMOS DO ANTIGO TESTAMENTO

 

Há alguns termos que acentuam o elemento intelectual do decreto, como ’etsah, de ’ya’ats, aconselhar, dar aviso – Jó 38:2; Isaías 14:26; 46:11; sod, de yasad, sentar-se junto para deliberação (nifal) – Jeremias 23:18, 22; e mezimmah, de zamam, meditar, ter em mente, propor-se a – Jeremias 4:28; 51:12; Provérbios 30:32. Além destes, há termos que salientam o elemento volitivo, como chaphets, inclinação, vontade, beneplácito – Isaías 53:10; e ratson, agradar, deleitar-se, e, assim, denotar deleite, beneplácito, ou vontade soberana – Salmos 51:19; Isaías 49:8.

 

TERMOS DO NOVO TESTAMENTO

 

O Novo Testamento também contém certo número de vocábulos significativos. A palavra mais geral é boule, que designa o decreto em geral, indicando também o fato de que o propósito de Deus se baseia num conselho e deliberação – Atos 2:23; 4:28; Hebreus 6:17. Outra palavra um tanto geral é thelema que, quando aplicada ao conselho de Deus, dá ênfase ao elemento volitivo, e não ao elemento deliberativo – Efésios 1:11. O vocábulo eudokia acentua mais particularmente a liberdade do propósito de Deus, e o prazer de que vem acompanhada, embora nem sempre esta idéia esteja presente – Mateus 11:26; Lucas 2;14; Efésios 1:5, 9. Outras palavras são empregadas mais especificamente para designar aquela parte do decreto divino que pertence num sentido muito especial às criaturas morais de Deus, e é conhecida como predestinação. Estes termos serão considerados em conexão com a discussão desse assunto.

 

2 – A natureza dos decretos divinos.

 

Pode-se definir o decreto de Deus, com o Breve Catecismo de Westminster, como “o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória, Ele predestinou tudo o que acontece”.

 

O DECRETO DIVINO É SOMENTE UM

 

Apesar de muitas vezes falarmos dos decretos de Deus no plural, em sua própria natureza o decreto é somente um único ato de Deus. Já o segure o fato de que a Bíblia fala dele como “prothesis”, um propósito ou conselho. Isto se segue também da natureza mesma de Deus. O seu conhecimento é de todo imediato e simultâneo, e não sucessivo como o nosso, e a sua compreensão desse conhecimento é sempre completa. E o decreto que nEle se funda é também um ato absolutamente compreensivo e simultâneo. Como decreto eterno e imutável não poderia ser doutro modo. Não existe, pois, uma série de decretos de Deus, mas somente um plano compreensivo, que abrange tudo o que se passa. Contudo, a nossa compreensão limitada força-nos a fazer distinções, e isto explica por que muitas vezes falamos dos decretos de Deus no plural. Esta maneira de falar é perfeitamente legítima, desde que não percamos de vista a unidade do decreto divino, e da inseparável ligação entre os vários decretos como os concebemos.

 

A RELAÇÃO DO DECRETO COM O CONHECIMENTO DE DEUS

 

O decreto de Deus tem a mais estreita relação com o conhecimento divino. Há em Deus, como vimos, um conhecimento necessário, que inclui todas as causas e resultados possíveis. Este conhecimento fornece o material para o decreto; é a fonte perfeita da qual Deus extraiu os pensamentos que Ele desejava objetivar. Deste conhecimento de todas as coisas possíveis, Ele escolheu, por um ato da sua vontade perfeita, levado por sábias considerações, o que desejava levar à realização, e assim formulou o seu propósito eterno. O decreto de Deus é, por sua vez, o fundamento do seu livre conhecimento, ou scientia libera. É o conhecimento das coisas conforme se realizam no curso da história. Enquanto que o conhecimento necessário de Deus precede logicamente ao decreto, o seu conhecimento livre segue-se logicamente a Ele. Deve-se sustentar isto contra todos os que crêem numa predestinação condicional, desde que eles tornam as predeterminações de Deus dependentes da sua presciência. Algumas das palavras utilizadas para denotar o decreto divino indicam um elemento de deliberação do propósito de Deus. Seria um erro inferir disto, porém, que o plano de Deus resulta de alguma deliberação que implica falta de perspicácia ou hesitação, pois é simplesmente uma indicação do fato de que não há decreto cego de Deus, mas somente propósito inteligente e deliberado.

 

O DECRETO SE RELACIONA TANTO COM DEUS COMO COM O HOMEM

 

O decreto se refere primeiramente às obras de Deus. Limita-se, porém, às opera ad extra de Deus, ou a seus atos transitivos, e não pertence ao ser essencial de Deus, nem às atividades imanentes dentro do Ser Divino que resultam nas distinções trinitárias. Deus não decretou ser santo e justo, nem existir como três pessoas numa essência, nem gerar o Filho. Estas coisas são como são necessariamente, e não dependem da vontade optativa de Deus. Aquilo que é essencial ao ser interno de Deus não pode fazer parte do conteúdo do decreto. Este inclui somente as opera ad extra ou exeuntia. Mas, conquanto o decreto pertença primariamente aos atos realizados pessoalmente por Deus, não se limita a estes, mas abrange também as ações das suas criaturas livres. E o fato de estarem incluídas no decreto as torna absolutamente certas, conquanto não sejam efetuadas todas da mesma maneira. No caso de algumas coisas, Deus decidiu, não meramente que viessem a acontecer, mas que Ele as faria acontecer, quer imediatamente, como na obra da criação, quer por intermédio de causas secundárias, continuadamente vitalizadas e fortalecidas pelo seu poder. Ele mesmo assume a responsabilidade da realização delas. Há, porém, outras coisas que Deus inclui no seu decreto e pelo qual tornou certa, mas que não decidiu efetuar pessoalmente, como os atos pecaminosos das suas criaturas racionais. O decreto, no que se refere a estes atos, é geralmente denominado decreto permissivo. Este nome não implica que o futuro destes atos não é certa para Deus, mas simplesmente que Ele permite que aconteçam pela livre ação das suas criaturas racionais. Deus não assume a responsabilidade por estes atos, sejam quais forem.

 

O DECRETO PARA AGIR NÃO É O ATO PROPRIAMENTE DITO

 

Os decretos são uma manifestação e um exercício internos dos atributos divinos que se tornam certa ao futuro das coisas, mas não se deve confundir este exercício da inteligente volição de Deus com a realização dos seus objetivos na criação, na providência e na redenção. O decreto para criar não é a criação mesma, nem o decreto para justificar é a justificação propriamente dita. Deve-se fazer uma distinção entre o decreto e a sua execução. Ordenar Deus de tal modo o universo, que o homem seguirá certo curso de ação, também, é uma coisa bem diferente de ordenar-lhe Ele que aja desse modo. Os decretos não são dirigidos ao homem, e não são da natureza de uma lei estatutária; tampouco impõem compulsão ou obrigação às vontades dos homens.

 

Certa vez Arthur W. Pink disse: — “Temos visto que a vontade do homem natural não é soberana nem também não livre, senão antes bem serva de sua natureza caída e do pecado”.

 

Isto é a verdade acerca do homem depois da queda, agora o homem necessita da soberania de Deus em poder e misericórdia, pois ele (o homem se encontra morto em delitos e pecados – Efésios 2:1, 2); clamemos ao Deus soberano e Todo–poderoso que vivifique os homens mortos com o seu infinito poder e acalme os seus corações com a sua eterna consolação. Amém!

 

Paz e graça.

 

[1] – Teologia Sistemática Louis Berkhof.

 

 

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3 Comments;

  1. Muito bom o artigo , explicando detalhadamente a soberania de Deus … Falando também sobre a trindade … Agregou mais a meu intelecto … Obrigado
    Graça e paz !!!

  2. Muito Esclarecedor, e Edificante deixando bem transparente a Boa e perfeita vontade de deus que se define na obra da criação da Providência e da Redenção.Tudo se resume No Senhor e em conhecê-lo…

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