Como ser um líder cristão

Retidão diante de Deus e dos homens.

Em 1 Timóteo 3:1 – 7, Paulo escreve para o jovem Timóteo acerca do oficialato cristão, ele inicia dizendo: — “Fiel é a palavra”. João Calvino comenta acerca dessa expressão, “Não concordo com Crisóstomo que acreditava ser esta frase parte da seção anterior. Paulo, segundo seu costume, usa essa expressão à guisa de prefácio a uma afirmação importante, e o tema anterior não carece de expressão tão forte. O que o apóstolo está para declarar agora é muito mais sério, portanto, tomemos a frase como um prefácio destinado a indicar a importância do assunto a seguir, porquanto o apóstolo está agora começando uma nova abordagem acerca da designação de pastores e que forma de governo seria estabelecida para a Igreja”.

Na primeira epístola a Timóteo, Paulo escreve como ser um líder cristão.

Paulo diz, “Se um homem aspira ao ofício de bispo”.  Calvino comenta, já de início, havendo acabado de excluir as mulheres do ofício docente [na Igreja], ele agora aproveita a oportunidade para falar desse ofício propriamente dito.

De igual modo, William Barclay, concorda com a interpretação de Calvino, “Esta é uma passagem muito importante do ponto de vista do governo da Igreja. Refere-se ao homem que algumas versões chamam bispo, e outras versões supervisor”.

Sua intenção é primeiramente pôr em evidência que tinha boas razões para excluir as mulheres do exercício de um dever que exigia tanto; e, em segundo lugar, para evitar-se a insinuação de que, excluindo somente as mulheres, todos os homens, indiscriminadamente, podiam prontamente ser admitidos; e, em terceiro lugar, porque era indispensável que Timóteo e os demais fossem advertidos a se precaverem no ato da eleição dos bispos.

Portanto, em conexão com a passagem anterior, é como se Paulo dissesse: — “não é só uma questão de as mulheres não serem apropriadas para [o desempenho de] tal ofício, mas nem mesmo os homens devem ser admitidos para o seu exercício sem qualquer critério”.

Paulo continua a sua explicação, “Excelente obra deseja”. Portanto, ele afirma que essa não é uma obra comum que qualquer pessoa ousasse empreender. Ao usar a palavra “καλόν” para descrevê-la, não tenho dúvida de que ele está fazendo alusão ao antigo provérbio, recorrentemente citado por Platão, “δύσκολα τα καλά”, significando que as coisas que são excelentes são igualmente árduas e difíceis. E assim ele conecta dificuldade com excelência, ou melhor, argumenta que o ofício de bispo não pertence a todo e qualquer homem, visto ser o mesmo algo valiosíssimo.

Creio que o pensamento de Paulo é agora suficientemente claro, ainda que nenhum dos comentaristas, até onde pude perceber, o tenha compreendido. O sentido geral consiste em que é indispensável que tal discriminação seja exercida na admissão dos bispos, visto ser o mesmo um ofício laborioso e difícil; e os que o aspiram devem ponderar prudentemente se são capazes de suportar uma responsabilidade tão pesada.

A ignorância é sempre precipitada, e um discreto discernimento das coisas faz um homem modesto. A razão por que homens destituídos de habilidade e de sabedoria às vezes aspiram temerariamente assumir as rédeas do governo é porque tentam fazê-lo com os olhos vendados.

Quintiliano observou que, enquanto os ignorantes falam com ousado desembaraço, os oradores mais excelentes, pasmos, tremem. A fim de conter tal ousadia na busca do ofício episcopal, Paulo primeiramente afirma que ele não é uma profissão rendosa, e, sim, uma obra; e, em seguida, que este ofício não é qualquer gênero de obra, e, sim, que é uma excelente obra, e, portanto, espinhosa e saturada de dificuldades, como na verdade o é.

Porquanto, representar o Filho de Deus — “sustinere personam Filii Dei” — não é algo de pouca monta (relevância), diante da gigantesca tarefa de erigir e expandir o reino de Deus, de cuidar da salvação das almas, as quais o Senhor mesmo condescendeu comprar com seu próprio sangue, e de governar a Igreja que é a herança de Deus. Não é minha  intenção, porém, pregar um sermão, e Paulo voltará a este tema no próximo capítulo.

Aqui se suscita a pergunta se é lícito, em quaisquer circunstâncias, buscar o ofício episcopal. Porquanto, é aparentemente absurdo que os desejos humanos antecipem a vocação divina. Ainda, porém, que Paulo censure o desejo temerário, ele parece admitir uma aspiração restrita e modesta por esse ofício. A questão é que, se a ambição egoísta, em geral, deve ser condenada, ela é ainda mais repreensível em relação ao episcopado.

O apóstolo, porém, está falando, aqui, de um desejo piedoso que os homens consagrados possuem, ou seja, aplicar seu conhecimento da doutrina para a edificação da Igreja. Pois se fosse completamente errôneo buscar o ofício docente — “docendi munus” –, que problema haveria em os homens gastarem sua juventude no estudo da Sagrada Escritura a fim de preparar-se para o exercício do mesmo? E o que são as escolas teológicas senão berçários de pastores?

Portanto, aqueles que têm sido assim instruídos, não só podem, mas também devem fazer um espontâneo oferecimento a Deus, de si próprios e de seu trabalho, mesmo antes de serem eles admitidos a algum ofício eclesiástico; contanto que não forcem seu ingresso, nem sequer sejam movidos por seu próprio desejo a se iniciarem como bispos (pastores); senão simplesmente que se disponham a aceitar o ofício, caso se solicite sua participação. E se porventura suceder, de acordo com a ordem prescrita da Igreja — “legitimo ordine”. –, que não sejam chamados, então saibam que Deus assim o quis, e que não levem a mal se porventura se haja preferido a outrem em vez deles.

Aqueles cujo desejo era servir exclusivamente a Deus, sem pensar em si próprios, serão influenciados dessa forma, e no devido tempo demonstrarão uma modéstia tal que de forma alguma sentirão ciúmes caso outros forem preferidos a eles por serem mais dignos.

Se porventura alguém objetar que o governo da Igreja é tão difícil que infundirá terror nos homens de são juízo, em lugar de encantá-los, respondo que os homens piedosos o desejam, não porque tenham alguma confiança em sua própria iniciativa e virtude, mas porque confiam no auxílio divino, o qual é a nossa suficiência, no dizer de Paulo (2 Coríntios 3:5).

É mister que notemos igualmente qual é a intenção de Paulo aqui, ao falar do ofício de bispo (pastor), especialmente diante do fato de que as gerações antigas foram desviadas do verdadeiro sentido pelos costumes de suas épocas. Enquanto Paulo inclui na designação – “bispo” – todos os pastores, eles entendem que bispo é alguém que foi eleito de cada colégio presbiterial para presidir sobre seus irmãos. Tenhamos em mente, portanto, que esta palavra significa o mesmo que ministro, pastor ou presbítero.

Paulo destaca as virtudes e responsabilidades dos pastores para o ofício.

[1] – Irrepreensível; impecável; a mesma palavra grega usada em 5:7 e 6:14.

O líder cristão deve ser irrepreensível (anepileptos). A palavra “anepileptos” utiliza-se para referir-se a uma posição que não está exposta ao ataque, a uma vida que não está exposta à censura, a uma arte ou técnica que é tão perfeita que não se pode encontrar falhas, a um acordo que é inexpugnável e inviolável. O dirigente cristão deve ser um homem que não só esteja livre destas faltas que podem ser atacadas com acusações definidas, deve ser um homem de qualidades tão excelentes que esteja fora de toda critica. Os gregos definiam o significado da palavra como “não proporcionando o que um adversário possa aferrar-se” – Este é o ideal da perfeição; não seremos capazes de alcançá-lo plenamente; mas o fato é que o líder cristão deve tentar oferecer ao mundo uma vida de tal pureza e nobreza que não deixe lugar nem sequer para a crítica de si mesmo (BARCLAY).

[2] – Vigilante (E.R.C.), temperante. Originalmente significa “moderado no uso do vinho”, mas aqui deve ser tomado figurativamente, uma vez que o versículo seguinte proíbe a intemperança. O verbo cognato significa ter autocontrole ou domínio próprio. [3] – Sóbrio; equilibrado; veja também Tito 1:8; 2:2, 5. [4] – Modesto; ordeiro; usado em relação às roupas das mulheres em 2:9. [5] – Hospitaleiro. Usado em Tito 1:8; 1 Pedro 4:9. Uma palavra semelhante foi usada em Romanos 12:13; Hebreus 13:2. [6] – Apto para ensinar. Usado apenas aqui e em 2 Timóteo 2:24; num lugar, tratando-se do ancião, em outro do ministro. A docência é mencionada com maior ênfase na carta a Tito, e aqui a habilidade para ensinar é tocada apenas de leve. Não é suficiente que uma pessoa seja eminente no conhecimento profundo, se não é acompanhada do talento para ensinar. Há muitos que, seja por causa da pronúncia defeituosa, ou devido à habilidade mental insuficiente, ou porque não estejam suficientemente em contato com as pessoas comuns, acabam guardando seu conhecimento fechado em seu íntimo, são os ermitões acadêmicos. Tais pessoas, como diz a frase, devem cantar para si próprias e para as musas – que vão e façam qualquer outra coisa. Os que são incumbidos de governar o povo devem ser qualificados para o ensino – infelizmente, não é uma realidade da Igreja no Brasil.

O líder cristão deve ser marido de uma só mulher; alguns poderiam crer que o líder cristão deve ser casado, e é possível que esta frase queira dizer isso; e é certo que um homem casado pode receber confidências e brindar ajuda de uma maneira que o homem solteiro não pode fazê-lo, e que pode outorgar uma compreensão e uma simpatia especiais em muitas situações da vida. Alguns diriam que isto significa que o líder cristão não se pode casar pela segunda vez, nem sequer depois da morte de sua esposa. Para apoiar isto citariam os ensinos de Paulo em 1 Coríntios 7. Mas em seu contexto aqui podemos estar bastante seguros de que isto significa que o líder cristão deve ser um marido fiel, que preserve o matrimônio em toda sua pureza.

Paulo também escreve que o homem não seja “dado ao vinho”. Que não seja briguento; rixento quando bebe; que não seja beberrão. Não violento. Não espancador (E.R.C.). Que não seja belicoso ou valentão. Usado só aqui e em Tito 1:7.

O líder cristão deve ser sóbrio (“nefalios”) como já dito, e um pouco mais adiante lemos que não deve ser dado ao vinho, não deve ser “paroinos”. No mundo antigo se usava o vinho continuamente. Em condições em que a provisão de água era inadequada e algumas vezes perigosa, o vinho era a bebida mais natural de todas. É o vinho aquele que alegra o coração de Deus e do homem (Juízes 9:13). Na restauração, Israel plantará seus vinhedos e beberá seu vinho (Amós 9:14). Aos que estão desfalecendo devem receber cidra, e vinho aos amargurados de ânimo (Provérbios 31:6).

Isto não quer dizer que o mundo antigo não tivesse consciência dos perigos que provêm da bebida alcoólica. Provérbios, fala do desastre que sobrevém ao homem que olha ao vinho quando avermelha (Provérbios 23:29 – 35). O vinho é escarnecedor e a cidra é alvoroçadora (Provérbios 20:1). Existem histórias terríveis a respeito do que aconteceu a várias pessoas por ser muito indulgentes com o vinho. Há o caso do Noé (Gênesis 9:18 – 27); o de Ló (Gênesis 19:30 – 38); o de Amom (2 Samuel 13:28, 29).

Mas apesar de que o mundo antigo utilizava o vinho como a mais comum de todas as bebidas, o fazia sobriamente. Quando se bebia vinho, era feito na proporção de duas partes de vinho por três de água. Um ébrio era uma ofensa na sociedade pagã comum, quanto mais na Igreja. O interessante é o duplo significado que têm ambas as palavras nesta seção. “Nefalios” significa sóbrio, mas também quer dizer atento, vigilante. “Paroinos” significa viciado no vinho, mas também significa briguento e violento.

O ensino das Pastorais assinala aqui que o cristão não deve permitir-se nem prazeres nem indulgências que diminuam sua vigilância cristã ou manchem sua conduta cristã.

É aconselhável que o cristão de modo em geral não consuma bebida alcoólica — existem muitos perigos, e a Bíblia adverte acerca de todos eles — mas, não podemos afirmar que a bebida uma vez ingerida é pecado, quando de fato, não o é; destarte, a linha da embriaguez é tênue, e de fato, a embriaguez é pecado e ignomínia para a Igreja e o testemunho do Evangelho.

Devem-se levar em conta os contextos, são épocas diametralmente opostas, e a Igreja brasileira, infelizmente, é ignorante acerca de muitos assuntos bíblicos, o cristão que faz outro cristão tropeçar na fé e testemunho, será culpado de tal escândalo – devemos agir sempre nos balizando pelo amor. Segui o que Paulo escreve aos corintos, “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine” – 1 Coríntios 6:12.

Logo seguem duas grandes palavras gregas que descrevem duas importantes qualidades que devem caracterizar o líder cristão. O líder cristão deve ser prudente (“sofron”) e decoroso (“kosmios”).

Gilbert Murray, o grande erudito clássico, escreveu a respeito desta palavra “sofron”: — “Existe uma maneira de pensar que destrói e outra que salva”. O homem que é “sofron” anda entre as belezas e os perigos do mundo, sentindo amor, alegria, ira e o resto; e no meio de tudo tem em sua mente algo que salva.

Paz e graça.

Por Pr. Plínio Sousa.

[1] – CALVINO, João, Série de Comentários Bíblicos, Pastorais, p. 88 – 93, Tradução: Valter Graciano Martins, Título do Original: Calvin’s Commentaries: The Second Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians and the Epistles to Timothy, Titus and Philemon.

[2] – Comentário Bíblico Moody, p. 17.

[3] – BARCLAY, William, Título original em inglês: The First Letter to Timothy, Tradução: Carlos Biagini, p. 81.

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