Curando as Feridas da Alma, parte 2

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Curando as Feridas da Alma, parte 2

No versículo cinco temos os socorros de seu semblante (sua graça); aqui, porém, temos o pronome relativo da primeira pessoa, portanto, os socorros de meu rosto. É provável que neste lugar a letra, “vau”, que no idioma hebraico denota a terceira pessoa, esteja faltando.

 

Todavia, como todas as demais versões concordam na redação que tenho adotado, Davi poderia, sem qualquer obscuridade, chamar Deus por esta designação: — Os socorros ou os salvamentos de meu rosto, uma vez que, como buscava confiança para um livramento, manifesto e infalível, como se Deus aparecesse de uma forma visível como seu defensor e o protetor de seu bem-estar com Deus (dentro das aflições).

 

Não pode haver dúvida, contudo, de que neste lugar o termo socorros ou salvamentos deva ser visto como um epíteto (qualificação elogiosa) aplicado a Deus; pois imediatamente a seguir vem a frase: — “e meu Deus”.

Minha alma se consome de tristeza diz o salmista (Salmos 119:28). Como um pouco antes ele dissera que sua alma se apegava ao pó, agora, quase no mesmo tom, ele se queixa de que sua alma se consumia de tristeza.

 

Há quem nutra a opinião de que o salmista faz alusão às lágrimas, como se quisesse dizer que sua alma se dissolvia em lágrimas. Mas o significado mais simples é que seu vigor era derramada como água.

 

O verbo está no tempo futuro, contudo denota uma ação contínua. O profeta se assegura de um remédio para a sua dor, “se Deus lhe estender a sua mão”. Outrora, quando se sentia quase sem vida, ele nutria a expectativa de uma vivificação por meio da graça de Deus; agora também, pelo mesmo instrumento, ele nutre a esperança de lhe ser restaurado o vigor, renovado e completo, embora estivesse quase sem alento (cf. 2 Coríntios 12:9).

 

Ele reitera a expressão segundo tua palavra porque, sem a palavra de Deus, o seu poder nos proporcionaria pouco conforto. Mas, quando Ele vem em nosso socorro, mesmo quando nossa coragem e força desfaleçam, sua promessa é ricamente eficaz para nos fortalecer a esperança.

 

E se a nossa ferida na alma foi a consequência de um erro estúpido, de outro ou nosso?

 

Ele diz acerca de uma causa: — “Desvia de mim o caminho da falsidade” (Salmos 119:29). Às vezes as nossas “almas abatidas”, é a consequência de nossas imprudências por ignorância ou rebelião. Sabendo quão propensa é a natureza humana à vaidade e à falsidade, ele solicita primeiramente a santificação de seus pensamentos, para que não caísse em erro, se fosse emaranhado pelas armadilhas de Satanás.

 

Em seguida, para que pudesse guardar-se da falsidade, ele ora para ser fortalecido com a doutrina da lei. A segunda cláusula do versículo é interpretada de modo variado. Alguns a traduzem; Faz com que tua lei me seja agradável. E, como a lei é desagradável à carne, que a lei subjuga e mantém em sujeição, há boa razão para que Deus seja solicitado a tornar a lei aceitável e agradável a nós.

 

Outros a expõem assim: — tem misericórdia de mim de acordo com a tua lei, como se o profeta extraísse piedade do próprio manancial, porque Deus, em sua lei, a prometeu aos fiéis.

 

Ambos esses significados me pareceram um tanto forçados. Por isso, sou mais inclinado a adotar outro: — “outorga-me gratuitamente a tua lei”. O termo original (“channeni”) não pode ser traduzido de outro modo em latim, senão; esta é uma expressão insólita e bárbara, admito, mas que pouco me preocupará, contanto que meus leitores compreendam a intenção do profeta (CALVINO, Salmos, vol. IV, p. 195).

 

O equivalente é: — para ser totalmente cego nada é-nos mais fácil do que ser grandemente enganado pelo erro. E, portanto, a não ser que Deus nos ensine, pelo Espírito de sabedoria, incorreremos em vários erros. O meio de sermos preservados de erros é declarado que consiste no instruir-nos Deus em sua lei. O salmista faz uso do termo gratificar.

 

“De fato, é uma bondade incomparável os homens se deixarem dirigir por tua lei; mas, em consequência de tua bondade ser imerecida, não hesito em rogar-te que me admitas como participante desta tua bondade” –  João Calvino.

 

Se o profeta, que, algum tempo antes, servira a Deus, ao aspirar agora por mais conquistas, não pede que uma medida maior da graça lhe seja dada meritoriamente, mas confessa que ela é o dom gratuito de Deus; então, cai por terra aquele dogma ímpio que se adquire no tempo atual, de que um aumento de graça é dado ao mérito como merecedor dele.

 

A nossa cura.

 

No versículo 30 diz o salmista: — “Tenho escolhido o caminho da verdade”. Neste e no versículo seguinte, ele afirma que se sentia tão disposto que nada mais desejava, senão seguir a justiça e a verdade. Portanto, é com grande propriedade que ele emprega o termo escolher.

 

O antigo adágio (provérbio popular) de que a vida do homem está, por assim dizer, em um ponto em que dois caminhos se encontram se refere não simplesmente ao teor geral da vida humana, mas também à ação particular dela.

 

 Pois, no mesmo instante em que empreendemos algo, não importa quão pequeno seja, ficamos seriamente perplexos e, como que fugindo de uma tempestade, somos confundidos por conselhos conflitantes.

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Por isso, o profeta declara que, a fim de seguir constantemente a vereda certa, resolvera e determinara plenamente não abandonar a verdade. Assim, ele notifica que não estava inteiramente isento de tentações, mas as sobrepujava, entregando-se à consciente observância da lei.

 

A sentença final do versículo, tenho posto teus juízos diante de mim, se relaciona com o mesmo tema. Não haveria nenhuma escolha fixa por parte dos fiéis, a menos que contemplassem firmemente a lei, não permitindo que seus olhos vagueassem ao léu.

 

No versículo seguinte, ele não somente assevera que nutre esta santa afeição pela lei, mas também a combina com a súplica de que não viesse a envergonhar-se e sentir-se vacilante ante a zombaria dos ímpios, enquanto se dedicava totalmente à lei de Deus. Aqui, ele emprega o mesmo termo que empregou antes, quando disse que sua alma se apegava ao pó. E, ao fazer isso, afirma que tinha levado tão a sério a lei de Deus, que não podia separar-se dela.

 

A sua expressão de medo de se ver envergonhado ou esmagado pelo opróbrio nos ensina que, quanto mais sinceramente uma pessoa se rende a Deus, tanto mais será ela atacada por línguas saturadas de vileza e peçonha.

 

Concluo dizendo, com uma frase do Rev. John Piper, o que reflete esta verdade cristã na vivência neste “mundo de aflições”.

 

“Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nEle; “nossa grande necessidade é sermos pessoas cujos deleites são os próprios deleites de Deus. O caminho que Jesus percorreu não é fácil, mas é glorioso. Nós vimos quem Ele é e o que fará. Agora, Ele nos convida a acompanhá-lo; tome as minhas pernas, mas não a minha Bíblia. “Eu posso chegar ao céu sem andar, mas não sem a Palavra de Deus”.

 

Paz e graça.

 

[1] – Comentário de João Calvino sobre Salmos, citações.

3 Comments;

  1. Estou amando todos esses temas e estudos que estão abordando e me enviando. Que Deus os abençoe mais e mais

  2. Artigo extremamente conclusivo, e muito persuasivo, observamos riqueza de detalhes nas explicações o que nos deixa saciados com mais um pouco de conhecimento no que se retrata a palavra de deus! Parabéns à equipe exito.

  3. Apreciei muito as duas abordagens. Que Deus continue usando você para consolar a muitos.

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